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quarta-feira, 25 de março de 2015

UMA CIDADE.....UM CÂNCER

As cidades são provavelmente o maior empreendimento do homem e a busca por uma definição adequada, nos leva a um amplo e complicado conjunto de parâmetros nos resultados, mas dentre eles é possível se ater a alguns detalhes e interpretações fundamentais para entender sua complexidade e sua relação com o tema:
  • Aglomerado urbano;
  • Indivíduos socialmente heterogêneos;
  • A ocorrência de certo padrão de convivência;
  • A identificação de um modo de vida característico dos citadinos;
  • A presença de um quantitativo populacional considerável.
Com estas configurações, a cidade se projeta com força e se alto define, além de, enquanto cidade, se coloca como resposta a toda espécie de anseio da sua população, sendo muitas vezes palco de conflitos graves e em muitas situações, ao invés de gerar prosperidade, reflete desigualdades crescentes, pobreza, injustiças flagrantes, ou seja, um amplo formigueiro de anseios contraditórios.

Sendo este palco de conflitos e injustiças, muitos que buscam uma convivência sadia e que resulte em um nível de bem estar mínimo em seu ambiente residencial, são atingidos de forma violenta por células sociais malignas que compõem e alteram o complexo tecido de convivência que forma a cidade. Refiro-me diretamente aos paredões de som (pancadões no sul e sudeste), que de uma forma totalmente irracional e fora dos parâmetros mínimos de convivência de uma cidade, invadem este tecido social e passam a funcionar como um câncer que vai corroendo vagarosamente a qualidade de vida dos moradores que residem próximos ao local onde ocorrem esta infecção.
Fig, 1-Percepção de alunos do problema durante o INAD 2014
Este tipo de equipamento é de uma magnitude e ilegalidade sem precedentes quando avaliamos seu poder de deteriorar o bem estar e a qualidade de vida de uma comunidade e, durante o mapeamento dos ruídos da Cidade de Fortaleza, onde verificamos os ruídos rotineiros e incorporados ao dia a dia de um ambiente urbano como: carros, trens, metrô, aviões e indústrias, foi possível avaliar o tamanho do impacto de um equipamento deste em uma área tipicamente residencial, pois passamos a ter o perfil diurno e noturno padrão estabelecido pela Carta Acústica de Fortaleza para aquela região e assim poderíamos ter uma avaliação real de seu impacto.

A oportunidade apareceu quando em uma sexta feira do mês de setembro de 2014, no bairro Vila Velha, em Fortaleza, dentro do espaço comercial de um Posto de Revenda de Combustíveis localizado na Av. Cel. Carvalho, localizado em uma área tipicamente residencial, flagrei um paredão que rotineiramente se posicionava no local.
Fig. 2-Mapa do Google do local (Setor B6)
O paredão chegou ao local às 21h15min da sexta feira e permaneceu lá até as 08h00min do dia seguinte (sábado), ou seja, permaneceu no local durante quase 11 horas, com seu som ligado a plena potência, que estava com nível de pressão sonora próximo a 118 dB(A), valor medido a 5m de distância da fonte em Leq, com sonômetro INSTRUTERM DEC 5030, de forma a traçar o correto perfil de frequências emitidas pelo equipamento e propiciar a inserção desta fonte específica no mapa de ruído da cidade, especificamente no setor B6.

Fig. 3-Tabela do CadnaA com as frequências inseridas
O setor B6 representa o bairro Vila Velha e parte do bairro Barra do Ceará e em sua configuração padrão da Carta Acústica, apresenta as seguintes configurações diurna e noturna:

Fig. 4-Mapa Diurno (Sem paredão)

Fig. 5-Mapa Noturno (sem paredão)

Nesta configuração padrão da Carta Acústica de Fortaleza, o principal fator de perturbação é o trânsito e as principais vias com amplo lastro são: Av. Cel. Carvalho e Av. Mozart Pinheiro de Lucena.

De posse da posição e das frequências do paredão, os dados foram inseridos no mapa de ruído correspondente (Setor B6) e foi feito o cálculo com a nova fonte inserida, resultando na seguinte configuração noturna:

Fig. 6 - Mapa Noturno (com paredão)

O evento provocado pelo PAREDÃO ocorreu em parte do entardecer, todo o período noturno, e parte do início do dia, mas nosso parâmetro de avaliação comparativa se restringe ao período noturno (22h00min às 06h00min), onde os níveis de ruído são naturalmente reduzidos devido a pouca incidência da principal fonte de ruído do setor: o trânsito. Os mapas correspondentes às duas situações são os seguintes:


Fig. 7-Mapa Noturno, sem e com paredão.


Em termos de valores, podemos fazer um comparativo direto entre os níveis de pressão sonora encontrados entre os blocos do Condomínio Santíssima Trindade (figuras 8), localizado nas proximidades da fonte e também verificar em termos quantitativos, o número de pessoas atingidas, além dos níveis de incômodo:



Fig. 8-Avaliação dos valores no Condomínio e residências próximas (com e sem paredão)

Nesta noite, entres os blocos E e I o nível de ruído tradicional que era de 37,3 dB(A), foi elevado para 56,4 dB(A), ou seja, uma diferença de aproximadamente 19 dB(A).

De forma comparativa é possível verificar que somente no condomínio objeto da avaliação, onde moram aproximadamente 864 pessoas, os níveis de ruído seguem o seguinte perfil:

Tab. 1- Valores conseguidos com quatro cálculos processados com as seguintes alturas de avaliações: 1,50m (1º andar); 4,00m (2º andar); 6,50m (3º andar) e 9,00m (4º andar). Os dados do mapa mostrado na figura 9 correspondem ao 2º andar na tabela.


Além dos pontos relativos ao Condomínio (tabela), diversos pontos em residências e cruzamentos são referenciados para comparação e todos mostram o impacto elevado do ruído provocado pelo paredão em toda a região.

O nível de preocupação aumenta quando passamos a avaliar o problema pelo viés da saúde. Pelos gráficos apresentados pelo Professor Pimentel-Souza durante um Seminário realizado em Belo Horizonte em 2014, verifica-se que existe perda dos sonos nobres em relação a sua duração e que este fato leva a possibilidade de uma série de problemas de saúde, alguns extremamente graves, principalmente com a continuidade do problema.


Fig. 9-Avaliação da perda de sonos nobres devido o ruído



Fig. 10- Problemas advindos da falta ou má qualidade do sono.

O episódio foi monitorado por completo, de forma a propiciar um total entendimento do que ocorre com um cidadão que se vê impactado de forma tão grotesca em relação ao seu bem estar e os possíveis prejuízos à sua saúde. Durante todo o evento, diversas viaturas policiais transitaram pelo local, viram e ouviram, e não tomaram uma atitude dentro do que especifica a legislação, que tem como objetivo básico propor regras de condutas a uma sociedade onde os indivíduos são socialmente heterogêneos.


A cidade, como dito anteriormente é uma resposta aos anseios de sua população e muitas vezes palco de conflitos graves e a situação imposta pelo paredão é um deles, pois representa um quebra das regras básicas de convivência social e gera uma preocupação com a queda imposta à qualidade de vida, exigindo uma resposta “RÁPIDA” e eficiente pelo Poder Público aos seus anseios. Não é possível a população ficar refém durante tanto tempo a um episódio tão brutal e tão ilegal.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

SUA CIDADE É BOA PARA VIVER?

Platão e Sócrates costumavam discutir nos mercados atenienses as virtudes de uma boa cidade e quais os fatores que as faziam triunfar e quase sempre as qualidades inerentes ao fator humano se sobrepunham aos fatores relativos à infraestrutura. Esta participação humana mostra sua importância desde a própria criação das cidades e seguem pela história, mostrando-se como resposta à maioria dos anseios de todos nós.
Hoje, quando pensamos em qual seria a cidade ideal para viver, uma ampla lista de cidades passa em nossos pensamentos e esta questão é periodicamente respondida por diversas instituições, que estabelecem seus parâmetros de avaliações, entre eles:

OECD – Espaços verdes, acessibilidade, arquitetura, vida noturna, escolas e hospitais.

The Economist - Estabilidade, saúde, cultura, meio ambiente, educação e infraestrutura.

Revista Britânica Monocle: Saúde, educação, governo, áreas verdes, transporte, cultura, lazer, poluição.

A classificação mais recente originou-se da OECD (The Organisation for Economic Co-operation and Development), que divulgou recentemente uma lista de cidades que são consideradas as melhores para se viver e nos últimos dois anos, foi Camberra, capital politica da Austrália, escolhida como a melhor.
Camberra que é uma cidade totalmente planejada e construída para se contrapor à rivalidade entre Sidney e Melbourne e se apresenta muito forte dentro dos parâmetros da avaliação, mas que, segundo a Revista The Economist, dificilmente ela seria uma cidade que muitos sonhem em viver, pois é muito planejada, com boas intenções, mas muito artificial, sem alma e “sem barulho”. Para eles, a melhor cidade também é australiana, mas uma concorrente de Camberra. Trata-se da capital australiana da cultura: Melbourne. Já para a Revista Monocle, a melhor cidade é Copenhague na Dinamarca.
Todas grandes cidades com suas virtudes e com poucas deficiências, cada uma questionada por opositores, principalmente Camberra, que o Jornal The Guardian questionou: Tornar-se-ão as nossas cidades em mórbidas Camberras? Levando-nos a pensar o que faz de uma cidade perfeita para vivermos? Onde nos sentiremos bem?

No Brasil, a Delta Economics& Finance/América Economia, realizou uma pesquisa com a finalidade de buscar as melhores cidades do país para se viver e estabeleceu uma avaliação aonde a pontuação máxima chega a 100 e os parâmetros são os seguintes:
Parâmetros de avaliação no Brasil
Dentro desta avaliação, Fortaleza ficou situada em 46º lugar (43,73 pontos em 100 possíveis), com muitas notas baixas, especialmente em bem estar (2,73 - 5), em segurança (0,76 - 2), em governança  (16,75 - 27) e educação (4,99 - 10), entre outros.
Estes estudos buscam avaliar como estamos em relação à qualidade de vida em nossas cidades e como a busca pelo bem estar evolui, já que a expansão contínua costuma trazer sequelas perigosas para os grandes centros urbanos: violência, problemas de mobilidade, lixo, poluição atmosférica, poluição sonora, entre outros.
No âmbito deste texto, a Poluição Sonora entra como o principal vilão de degradação da qualidade de vida e segundo os estudos oriundos da Carta Acústica de Fortaleza, como nas cidades citadas, mostram um perfil onde o trânsito se coloca com 85% de responsabilidade dos ruídos produzidos na cidade, sendo assim a principal fonte de ruído.
Dentro deste espectro, recentemente, o Jornal  El País, mostrou que em Madrid, por exemplo, essa fonte (carros) contribui com 80% do total e que recentemente um grupo de pesquisadores espanhóis tentou quantificar estatisticamente, a dimensão do problema para a saúde, principalmente em pessoas com mais de 65 anos. Este estudo, publicado na revista Environmental Research, estima que o nível de ruído diurno associado a 1.048 mortes por doenças cardiovasculares e a 1.060 por doenças respiratórias. Em cima de sua base de dados eles calcularam que se houver a redução média de um decibel nos níveis de ruído durante o dia poderia reduzir o número de mortes em 468, sendo 284 mortes anuais de origem cardiovascular e 184 relacionadas com problemas respiratórios.
Como já relatado anteriormente neste BLOG, nos últimos anos, muitos estudos encontraram uma correlação entre a exposição ao ruído e problemas cardiovasculares, como a hipertensão ou infarto do miocárdio e paralelamente com problemas respiratórios. A tabela a seguir, foi apresentada pela OMS em Sidney 2010.
Tabela resumo do impacto na saúde - OMS - ICA 2010
Ainda sobre o estudo publicado na revista, os especialistas avaliam que por trás dessa conexão, entre outros fatores, pode estar o cortisol, um hormônio que é liberado em resposta ao estresse. O ruído aumenta o estresse e desencadeia a produção de cortisol, que por sua vez ativa o metabolismo do tecido adiposo para aumentar a oferta de energia, de forma que o corpo possa responder melhor ao estresse e assim, este efeito acabaria agravando problemas como a arteriosclerose.
Além dos idosos, os estudos também mediram variação nos níveis de cortisol na saliva de crianças que costumam dormir em ambientes ruidosos e silenciosos e verificaram que o nível do hormônio foi superior nas avaliações com ruído e a maior quantidade de cortisol foi associada a uma resposta pouco satisfatória do sistema imunológico e esta situação poderia estar por trás do agravamento de problemas respiratórios.
Assim, verificamos que a cada ano, estes estudos e pesquisas vêm confirmando o impacto do ruído na saúde e na queda da qualidade de vida nas cidades, principalmente nas maiores, já que passou a ser um componente quase que inerente ao desenvolvimento e que muitas pessoas se habituaram à sua presença constante e muitas vezes reclamam de sua falta, vide observação do The Economist, em sua crítica à escolha da “silenciosa” Camberra.
Para completar o já elevado grau de ruído em nossas cidades, em muitas cidades do Brasil, a falta de “educação” eficiente desde a fase inicial e o longo “desgoverno” da maioria destas cidades, facilitaram o surgimento de fatores complementares para elevação deste nível de ruído, como os paredões (pancadões), casas de show, restaurantes e igrejas sem o adequado tratamento acústico e em sua maioria, localizadas em desacordo com a legislação de uso e ocupação do solo.
É bem verdade que estas fontes não incidem diretamente nos mapas de ruído, pois não são continuadas e diárias, mas são objetos de estudos dos mesmos e colocados em confronto com o ruído ambiente explicitado nos mapas, mostram seu impacto na população e refletem diretamente na queda da qualidade de vida, como no exemplo a seguir onde um paredão no bairro Vila Velha em Fortaleza (estudo detalhado em postagem posterior) mostra toda seu “poder” de incômodo e de deterioração da qualidade de vida :

Mapa esquerdo: Noturno e sem paredão - Mapa direito: Noturno e com paredão
(Origem: Carta Acústica de Fortaleza)
Assim, percebemos que a busca pela cidade perfeita não é tão simples e nos leva a refinar nossas exigências e neste refinamento verificamos que algumas grandes cidades que não foram citadas, apresentam trabalhos voltados para o bem estar da população e que apresentam assim uma excelente assinatura ambiental.
Hoje temos inúmeras cidades que investem fortemente na redução de seus níveis de ruído, eis alguns exemplos:

  • ·     Oslo, na Noruega, apesar de ser grande produtora de petróleo, incentiva o uso de veículos elétricos (se 12% dos veículos forem elétricos, já se conseguiria reduzir meio decibel), apesar de que a intenção primordial na cidade é a poluição atmosférica.
Pontos de recarga de carros elétricos na Europa
Estacionamento para carros elétricos
  • ·        Amsterdam, na Holanda, incentiva o uso de bicicletas e transportes públicos.



  • ·  Almada, em Portugal, incentiva o uso de bicicletas, ônibus elétricos (flexbus), tipo de pavimentação e maior implementação de linhas de metro.

Flexbus em ruas estreitas de Almada (zero ruído de motor - zero de poluição atmosférica)
Informações

Metro de superfície na principal via da cidade, que foi reformada e o espaço para veículos reduzido
(Foto-arquivo pessoal).
      
Cuidado especial com o ruído e a vibração (borrachas especiais ao lado do trilho)
(Foto: arquivo pessoal)
  • ·    Madri, monitora o uso excessivo de veículos, incentiva mudança de pavimentação e uso de asfalto mais poroso, além de incentivo ao uso de pneus mais silenciosos (redução de até 9dB).
Em resumo, as necessidades para se tornar uma cidade bem qualificada para se viver são muitas, mas são essenciais para estabelecer qualidade de vida para seus habitantes, Fortaleza, segundo a pesquisa relacionada, oscila negativamente principalmente devido a continuarmos demasiados centrados no medo e  na possibilidade opressiva da cidade, mas ao olharmos com carinho,  tendemos a nos maravilhar com as suas possibilidades, pois apesar da cidade ser um espaço de interações instrumentais, da escravidão do tempo, do trabalhar pesado e de forma contínua, dos sonhos melancólicos, da superficialidade, da indiferença e da alienação, também é o oposto, pois vemos uma cidade com um espaço de libertação da mentalidade, dos espaços abundantes que proporcionam liberdade para cada um se definir, nas suas opções de gênero, politica e cultura, sempre preservando o direito dos outros, faltando somente uma governança correta e permanente e o abraço do cidadão à cidade.

domingo, 28 de dezembro de 2014

OS SONS DO NATAL

Periodicamente acompanho as noticias relativas à poluição sonora que são disponibilizadas na mídia. Elas mostram situações de incômodo que se tornaram constantes e comuns em nossa sociedade.

Em minha cidade (Fortaleza), desde o ano 2000 acompanho as queixas da população em relação ao incômodo e que, em muitos casos, tiveram desfecho violento. São noticias dos jornais, reclamações aos órgãos competentes e uma série de e-mails que recebo periodicamente.

As queixas são variadas, indo desde o patético paredão (pancadão), até o ruído provocado pelo trânsito e tendem a mostrar o crescente comportamento agressivo de nossa sociedade, tanto em relação ao nosso desenvolvimento “barulhento”, quanto em relação ao nosso comportamento também excessivamente barulhento e pouco civilizado, onde até o poder público periodicamente patrocina ou autoriza eventos que causam incômodo considerável à comunidade próxima aos mesmos, chegando inclusive a alterar leis de forma a beneficiar quem oculta sua pouca qualidade musical atrás de níveis de pressão sonora elevados, sob a desculpa de que é “culturalmente” benéfico à cidade, exemplo recente de Salvador e que quase aconteceu aqui em Fortaleza a alguns anos atrás, mas que foi prontamente combatido pela mídia, sociedade e amigos do bem estar público.

Mas além dos fatos citados, o que mais preocupa atualmente são as mudanças em relação ao comportamento das pessoas quando em eventos com características familiares, onde rever familiares, amigos e um bom bate papo, são a base destes encontros, mas que atualmente não é isso que ocorre e um dos artigos que li recentemente, mostra  essa nova realidade:
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Durma com um barulho destes
O vizinho nos presenteia com o que chama de música em alto volume, convencidos de que seu gosto é universal e que lhes somos imensamente gratos pelo presente
por Menalton Braff — publicado 26/12/2014 13:54 na Revista Carta Capital

Não é a primeira vez que escrevo sobre barulho. Não um barulhinho destes de comprovar que estamos vivos. Vivos e audientes. Com esses convivo com tranquilidade, sou vizinho ordeiro e pacífico. Às vezes até cordial.

O caso que me toma o tempo hoje é o caso do barulho que a quase totalidade da humanidade chama de música, pois tem ritmo, marcado por trovões, melodia, vá lá que seja, e harmonia. Isto é, tem os três elementos fundamentais de que se forma a música. Por isso a designação. O problema é que, além desses três elementos, a música deles, dos meus vizinhos, tem volume. Não este volumezinho de acalanto, que quase sempre serve de fundo para nossos passeios imaginários pelos mundos próximos ou distantes. O volume com que nos presenteiam, convencidos de que seu gosto é universal e que lhes somos imensamente gratos pelo presente, faz tremerem as paredes, tilintarem as garrafas nas prateleiras, faz vibrar nossa pele, entupindo nossos ouvidos, pois nem conversar com nossos familiares podemos.

Ao me queixar a um amigo sobre o que venho sofrendo, ele, que é mais plugado que eu nos costumes modernos, afirmou que o caso não é só à minha volta. A cidade toda está barulhenta, o País inteiro vive de maneira trepidante, como se morássemos todos dentro de uma tecelagem em pleno funcionamento.
Bem, mas estamos falando é de música.

Dificilmente passa um carro aqui pela rua de casa, sem que a própria, a casa, deixe de estremecer. Ouço com frequência o barulho das telhas, que até minutos mais tarde continuam em serviço de acomodação.

Pois este assunto, que segundo psicólogos e filósofos com mais autoridade do que eu para tratar do assunto afirmam é um dos sinais de que a humanidade, e particularmente a ala jovem da humanidade, precisa do barulho para não precisar conversar ou apenas pensar. Vai-se a uma festa, lá estão eles movendo os braços, trançando as pernas, a boca fechada. Namora-se por gestos e esgares. O rosto, tão pouco é o que se tem a dizer, com sua expressão já diz tudo.

Nesta véspera de Natal, um vizinho recente, que se instalou aqui perto de casa, do outro lado da rua, inventou de celebrar o nascimento de Cristo. Sim, pois se não estou enganado, é isso que motiva encontros de familiares e amigos. E no encontro do vizinho, umas vinte pessoas em poucos metros quadrados, houve algumas coisas estranhas. A começar pelo volume de trovoada dos aparelhos de som, sabe, esta história de decibéis muito acima do humanamente aceitável. Coitados, pensei, precisam do barulho, caso contrário teriam de conversar como amigos. Mas o pior foi só terem desligado sua aparelhagem às cinco horas da manhã.

Outra coisa estranha foi o tipo de música que lhes entupia os ouvidos: pagode, música de Carnaval e, por fim, este lirismo amoroso tardio (em arte) a que chamam de música sertaneja.

Perplexo, descobri que Natal, Carnaval, hoje, é tudo a mesma coisa.

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A frase final do texto tende a resumir uma tendência em nossa sociedade, onde tudo parece ser Carnaval, tudo parece ser música, tudo parece ser legal.

A música é uma arte, as pessoas a apreciam de formas diferentes, uns ouvem a letra, outros a melodia, muitos a barulheira. Todas estas formas estão corretas, mas nenhuma delas pode se impor aos outros como a melhor. Talita Lorena (comentário referente ao texto)

Em nenhum momento o incômodo ao próximo é percebido, raramente o poder público trata o problema como uma infração legal e em raríssimas situações é percebido como um caso de saúde pública, levando ao desenrolar de situações grotescas e violentas como a citada em um dos comentários no texto apresentado:

Na minha rua também tinha o pancadão, mas graças a Deus apareceu dois motoqueiros por aqui e começou a dar tiro no meio da multidão deixando 3 baleados, desse dia para cá acabou. Josh Dilson

A dificuldade em se estabelecer processos de educação social e normas protetoras do bem estar em nossa sociedade, mostra a falta de interesse de nossas autoridades, que são quase que inteiramente cobertas com um manto negro composto pelos interesses financeiros e do poder eterno.

Em quase oito (8) anos tentando mapear o ruído em Fortaleza, vislumbrei muitas vezes este manto negro, pois raramente consegui mostrar a importância desta ferramenta estratégica às autoridades, fato que só começou a ocorrer na gestão anterior da nossa Secretaria de Meio Ambiente e foi inteiramente encampada pela gestão atual. 


Mas diversas pessoas e grupos interessados neste bem estar de nossa sociedade, tentam mudar este perfil e se interpõe neste jogo de interesses e buscam o equilíbrio de nossa sociedade.

domingo, 7 de dezembro de 2014

CRIANÇAS e ADOLESCENTES, uma visão da POLUIÇÃO SONORA

Durante o INAD 2014 (Dia Internacional da Conscientização Sobre o Ruído), foram visitadas algumas escolas públicas de Fortaleza e durante estas visitas, foi solicitado que os alunos fizessem desenhos ou redações relativas ao tema POLUIÇÃO SONORA.
Os resultados foram surpreendentes. Foram evoluindo de representações mais simples até representações surpreendentemente profundas e preocupantes.

Evidentemente não são obras de arte, são desenhos simples mas com nível de representatividade muito importante e diante do grande número destes desenhos, foram selecionados alguns dos que mais chamaram a atenção:

-Desenho 1: Um conjunto de problemas.



-Desenho 2: O temível paredão.


-Desenho 3: O ruído das intervenções do poder público no meio urbano:



-Desenho 4: O ruído e os problemas na saúde.



-Desenho 4: O incômodo.



-Desenho 5: O ruído aéreo, o ruído religioso e o ruído criminoso contra a natureza.



-Desenho 6: A contravenção penal.



-Desenho 7: O aeroporto de Fortaleza.



-Desenho 8: Reconhecendo e educando.



-Desenho 9: A fiscalização.



-Desenho 10: O som do vizinho.


-Desenho 11: O som da violência.



Os desenhos mostram a percepção das crianças em relação ao problema, eles retratam diversas formas de ruido em nossa cidade, suas consequências, o poder púbico e as perigosas derivações, principalmente a violência que se encontra inserida no último desenho de uma forma muito forte.

A reprodução destes desenhos neste BLOG, tem como objetivo mostrar o trabalho educacional realizado em Fortaleza, em parceria com o INAD e provocar uma reflexão em relação ao tema POLUIÇÃO SONORA e suas consequências.







domingo, 20 de julho de 2014

INAD 2014 - FORTALEZA

No dia 30 de abril de 2014 ocorreu mais um DIA INTERNACIONAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O RUÍDO e em Fortaleza a data foi mais uma vez cultivada com vigor. 

Este ano o evento foi incorporado com dedicação e muito carinho pela chefe da CCPS (Célula de Controle da Poluição Sonora) da SEUMA (Secretária de Urbanismo e Meio ambiente de Fortaleza), Astrid Câmara. 

Com muita dedicação, ela estabeleceu uma vasta relação de eventos para marcar a data, iniciando os eventos já no dia 28 de abril e distribuindo-os por toda semana:

Segunda-feira (28/04/2014)

- Exposição dos mapas de ruído da carta acústica de Fortaleza na Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma);

- Exposição dos desenhos das crianças da Escola Pública Municipal Irmã Simas e da escola particular Casa de Criança e exposição das redações dos alunos da Escola de Ensino Médio Estadual Telina Barbosa da Costa;




Terça-feira (29/04/2014)
- Exame auditivo (emissão otoacústica) gratuito para a população, na Seuma, das 8h30 às 12h;

Quarta-feira (30/04/2014)
- Descarte de equipamentos apreendidos durante fiscalização realizada pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), a partir das 11h, no estacionamento do órgão (Avenida Deputado Paulino Rocha, 1.343, Cajazeiras);

- Fórum Mensal de Urbanismo e Meio Ambiente com tema “Emissão de Autorização Sonora e Cadastro de Profissionais da Área”, das 9h às 12h;


- Teatro do Ronda do Quarteirão na Escola Irmã Simas, às 14h e na Escola Municipal Prof. Ernesto Gurgel, às 10h.



- Palestra educativa da Universidade de Fortaleza (Unifor) para os alunos da Escola de Ensino Médio Telina Barbosa da Costa, sendo realizado um minuto de silêncio, às 14h;


-Palestra Aurélio Brito em São Paulo - I Conferência Municipal sobre Ruído, Vibração e Perturbação Sonora, mostrando o trabalho realizado por Fortaleza.

O INAD 2014 apresentou uma mágica educacional poderosa e contagiante, conseguindo conquistar um grande número de alunos que mostraram um início de preocupação com o problema da POLUIÇÃO SONORA, preocupação que foi refletida nos desenhos e redações maravilhosas disponibilizados pelos mesmos, além da participação efetiva.

Este foi meu último ano na Coordenação do INAD no Ceará, evento que considero de suma importância para a conscientização do grave problema que é a POLUIÇÃO SONORA. Espero que a coordenação nacional convide Astrid para assumir a coordenação estadual no Ceará, pois sua dedicação e apego à causa foram dignas de nota.

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