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quarta-feira, 25 de março de 2015

UMA CIDADE.....UM CÂNCER

As cidades são provavelmente o maior empreendimento do homem e a busca por uma definição adequada, nos leva a um amplo e complicado conjunto de parâmetros nos resultados, mas dentre eles é possível se ater a alguns detalhes e interpretações fundamentais para entender sua complexidade e sua relação com o tema:
  • Aglomerado urbano;
  • Indivíduos socialmente heterogêneos;
  • A ocorrência de certo padrão de convivência;
  • A identificação de um modo de vida característico dos citadinos;
  • A presença de um quantitativo populacional considerável.
Com estas configurações, a cidade se projeta com força e se alto define, além de, enquanto cidade, se coloca como resposta a toda espécie de anseio da sua população, sendo muitas vezes palco de conflitos graves e em muitas situações, ao invés de gerar prosperidade, reflete desigualdades crescentes, pobreza, injustiças flagrantes, ou seja, um amplo formigueiro de anseios contraditórios.

Sendo este palco de conflitos e injustiças, muitos que buscam uma convivência sadia e que resulte em um nível de bem estar mínimo em seu ambiente residencial, são atingidos de forma violenta por células sociais malignas que compõem e alteram o complexo tecido de convivência que forma a cidade. Refiro-me diretamente aos paredões de som (pancadões no sul e sudeste), que de uma forma totalmente irracional e fora dos parâmetros mínimos de convivência de uma cidade, invadem este tecido social e passam a funcionar como um câncer que vai corroendo vagarosamente a qualidade de vida dos moradores que residem próximos ao local onde ocorrem esta infecção.
Fig, 1-Percepção de alunos do problema durante o INAD 2014
Este tipo de equipamento é de uma magnitude e ilegalidade sem precedentes quando avaliamos seu poder de deteriorar o bem estar e a qualidade de vida de uma comunidade e, durante o mapeamento dos ruídos da Cidade de Fortaleza, onde verificamos os ruídos rotineiros e incorporados ao dia a dia de um ambiente urbano como: carros, trens, metrô, aviões e indústrias, foi possível avaliar o tamanho do impacto de um equipamento deste em uma área tipicamente residencial, pois passamos a ter o perfil diurno e noturno padrão estabelecido pela Carta Acústica de Fortaleza para aquela região e assim poderíamos ter uma avaliação real de seu impacto.

A oportunidade apareceu quando em uma sexta feira do mês de setembro de 2014, no bairro Vila Velha, em Fortaleza, dentro do espaço comercial de um Posto de Revenda de Combustíveis localizado na Av. Cel. Carvalho, localizado em uma área tipicamente residencial, flagrei um paredão que rotineiramente se posicionava no local.
Fig. 2-Mapa do Google do local (Setor B6)
O paredão chegou ao local às 21h15min da sexta feira e permaneceu lá até as 08h00min do dia seguinte (sábado), ou seja, permaneceu no local durante quase 11 horas, com seu som ligado a plena potência, que estava com nível de pressão sonora próximo a 118 dB(A), valor medido a 5m de distância da fonte em Leq, com sonômetro INSTRUTERM DEC 5030, de forma a traçar o correto perfil de frequências emitidas pelo equipamento e propiciar a inserção desta fonte específica no mapa de ruído da cidade, especificamente no setor B6.

Fig. 3-Tabela do CadnaA com as frequências inseridas
O setor B6 representa o bairro Vila Velha e parte do bairro Barra do Ceará e em sua configuração padrão da Carta Acústica, apresenta as seguintes configurações diurna e noturna:

Fig. 4-Mapa Diurno (Sem paredão)

Fig. 5-Mapa Noturno (sem paredão)

Nesta configuração padrão da Carta Acústica de Fortaleza, o principal fator de perturbação é o trânsito e as principais vias com amplo lastro são: Av. Cel. Carvalho e Av. Mozart Pinheiro de Lucena.

De posse da posição e das frequências do paredão, os dados foram inseridos no mapa de ruído correspondente (Setor B6) e foi feito o cálculo com a nova fonte inserida, resultando na seguinte configuração noturna:

Fig. 6 - Mapa Noturno (com paredão)

O evento provocado pelo PAREDÃO ocorreu em parte do entardecer, todo o período noturno, e parte do início do dia, mas nosso parâmetro de avaliação comparativa se restringe ao período noturno (22h00min às 06h00min), onde os níveis de ruído são naturalmente reduzidos devido a pouca incidência da principal fonte de ruído do setor: o trânsito. Os mapas correspondentes às duas situações são os seguintes:


Fig. 7-Mapa Noturno, sem e com paredão.


Em termos de valores, podemos fazer um comparativo direto entre os níveis de pressão sonora encontrados entre os blocos do Condomínio Santíssima Trindade (figuras 8), localizado nas proximidades da fonte e também verificar em termos quantitativos, o número de pessoas atingidas, além dos níveis de incômodo:



Fig. 8-Avaliação dos valores no Condomínio e residências próximas (com e sem paredão)

Nesta noite, entres os blocos E e I o nível de ruído tradicional que era de 37,3 dB(A), foi elevado para 56,4 dB(A), ou seja, uma diferença de aproximadamente 19 dB(A).

De forma comparativa é possível verificar que somente no condomínio objeto da avaliação, onde moram aproximadamente 864 pessoas, os níveis de ruído seguem o seguinte perfil:

Tab. 1- Valores conseguidos com quatro cálculos processados com as seguintes alturas de avaliações: 1,50m (1º andar); 4,00m (2º andar); 6,50m (3º andar) e 9,00m (4º andar). Os dados do mapa mostrado na figura 8 correspondem ao 2º andar na tabela.


Além dos pontos relativos ao Condomínio (tabela), diversos pontos em residências e cruzamentos são referenciados para comparação e todos mostram o impacto elevado do ruído provocado pelo paredão em toda a região.

O nível de preocupação aumenta quando passamos a avaliar o problema pelo viés da saúde. Pelos gráficos apresentados pelo Professor Pimentel-Souza durante um Seminário realizado em Belo Horizonte em 2014, verifica-se que existe perda dos sonos nobres em relação a sua duração e que este fato leva a possibilidade de uma série de problemas de saúde, alguns extremamente graves, principalmente com a continuidade do problema.


Fig. 9-Avaliação da perda de sonos nobres devido o ruído



Fig. 10- Problemas advindos da falta ou má qualidade do sono.

O episódio foi monitorado por completo, de forma a propiciar um total entendimento do que ocorre com um cidadão que se vê impactado de forma tão grotesca em relação ao seu bem estar e os possíveis prejuízos à sua saúde. Durante todo o evento, diversas viaturas policiais transitaram pelo local, viram e ouviram, e não tomaram uma atitude dentro do que especifica a legislação, que tem como objetivo básico propor regras de condutas a uma sociedade onde os indivíduos são socialmente heterogêneos.


A cidade, como dito anteriormente é uma resposta aos anseios de sua população e muitas vezes palco de conflitos graves e a situação imposta pelo paredão é um deles, pois representa um quebra das regras básicas de convivência social e gera uma preocupação com a queda imposta à qualidade de vida, exigindo uma resposta “RÁPIDA” e eficiente pelo Poder Público aos seus anseios. Não é possível a população ficar refém durante tanto tempo a um episódio tão brutal e tão ilegal.

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