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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

TOLERÂNCIA ZERO EM FORTALEZA – I

“Em 1969, na Universidade de Stanford (EUA), o Prof. Phillip Zimbardo realizou uma experiência de psicologia social. Deixou duas viaturas abandonadas na via pública, duas viaturas idênticas, da mesma marca, modelo e até cor. Uma deixou no Bronx, na altura, uma zona pobre e conflituosa de Nova York e a outra em Palo Alto, uma zona rica e tranquila da Califórnia. Em seguida colocou uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada local.
Resultou que a viatura abandonada no Bronx começou a ser vandalizada em poucas horas. Perdeu as janelas, o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram. Contrariamente, a viatura abandonada em Palo Alto manteve-se intacta.
Seria fácil e comum atribuir à pobreza as causas de delito, atribuição em que coincidem as posições ideológicas mais conservadoras, (da direita e esquerda). Contudo, a experiência em questão não terminou aí, quando a viatura abandonada no Bronx já estava desfeita e a de Palo Alto estava há uma semana impecável, os investigadores partiram um vidro do automóvel de Palo Alto. O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o do Bronx, e o roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo ao mesmo estado que o do bairro pobre.
Por que o vidro partido na viatura abandonada num bairro supostamente seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso?
Não se trata de pobreza. Evidentemente é algo que tem que ver com a psicologia humana e com as relações sociais.
Um vidro partido numa viatura abandonada transmite uma idéia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação que vai quebrar os códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras, como que vale tudo. Cada novo ataque que a viatura sofre reafirma e multiplica essa idéia, até que a escalada de atos cada vez piores, se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.
Em experiências posteriores (James Q. Wilson e George Kelling), desenvolveram a 'Teoria das Janelas Partidas', a mesma que de um ponto de vista criminalístico, conclui que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores.
Se o vidro de uma janela de um edifício se parte e ninguém o repara, muito rapidamente estarão partidos todos os demais. Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se gerará o delito.
Se forem cometidas “pequenas faltas” (estacionar-se em lugar proibido, exceder o limite de velocidade ou passar-se um semáforo vermelho) e as mesmas não são sancionadas, então começam as faltas maiores e logo delitos cada vez mais graves. Se forem permitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando estas pessoas forem adultas. Se os parques e outros espaços públicos deteriorados são progressivamente abandonados pela maioria das pessoas (que deixa de sair das suas casas por temor às gangs), estes mesmos espaços abandonados pelas pessoas são progressivamente ocupados pelos delinqüentes.”
Este pequeno resumo transcreve minhas preocupações em relação a cidade de Fortaleza e o descaso das máquinas gestoras (Estadual e Municipal), atual e as anteriores com seu patrimônio e com o bem estar social. Praças onde eu costumava brincar quando criança e era ponto de encontro de famílias, foram abandonadas e hoje estão totalmente entregues a marginalidade. As pessoas a cada dia desrespeitam mais os princípios mais básicos da convivência social.
Quando vejo uma viatura da policia estacionada ao lado de um vendedor de DVD pirata e pior comprando, passar por pichadores, por destruidores de patrimônio público, ao lado de alguém urinando em via pública e por veículos com som alto e não tomar nenhuma atitude fico assustado. Delegados comumente colocam obstáculos a realização de T.C.O. em procedimentos “simples” como estes, criando obstáculos aos poucos policiais que tentam atender a estes procedimentos, desestimulando-os. Realmente é assustador.
Com estes pensamentos e com estas preocupações, tive a oportunidade recente de fazer algo por minha cidade, fui solicitado a assumir o cargo de coordenador da ECPS (Equipe de Controle da Poluição Sonora), no momento em que as criticas da população e mídia em geral eram elevadas. O Secretário Deodato que havia assumido recentemente pediu minha ajuda e me deu certa liberdade de ação e vendo o reduzido número de pessoas que poderia contar (equipe de mais de 30, mas apenas 9 tem as reais características de Servidor Público com interesse real de servir a população), passei a agir com eficiência e buscando o cumprimento da Lei, entre pobres ou ricos, barzinho da periferia ou Clube Social, grandes redes ou pequeno comércio, público ou privado, com “tiros certeiros” e escolhidos com inteligência.
Tudo acompanhado de perto pela CPMA (Companhia de Policiamento Militar Ambiental), comandada pelo Ten. Cel. Alencar e pelo GGI (Grupo de Gestão Integrada da Secretaria de Segurança Pública), através do Cel. Brito e do Delegado Arley, que percebendo a seriedade de meus propósitos, não se negaram a prestar todo apóio.
Agindo desta forma procurei mostrar que a Autoridade Pública estava presente em todos os pontos da cidade e que por menor que fosse o desrespeito as leis relativas a Poluição Sonora, haveria punição: multas, apreensão dos equipamentos, embargo da atividade, interdição e até cassação do Alvará de Funcionamento, buscando readquirir o respeito da população, o respeito a Lei e devolvendo aos Funcionários Públicos dedicados a visão de que é possível honrar com dignidade o salário que a população lhe paga.
O resultado foi imediato, os pontos mais conturbados da cidade foram um a um sendo dominados e controlados, a população mostrou-se encantada e solidária, a mídia respondeu a altura e o melhor de tudo a Lei voltou a ser obedecida e “respeitada”. Tudo isso com “apenas” 3 técnicos (Marcela, José Maria e Miramar) e três fiscais (Aurélio, Riotinto e Wanda) e o apóio interno de mais três funcionárias (Andréa, Cleidimar e Salete).

“A expressão 'Tolerância Zero' soa como uma espécie de solução autoritária e repressiva para alguns gestores menos informados, mas o seu conceito principal é muito mais a prevenção e promoção de condições sociais de segurança. Não se trata de linchar o delinquente, nem da prepotência da polícia, de fato, a respeito dos abusos de autoridade deve também aplicar-se a tolerância zero. Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito. Trata-se de criar comunidades limpas, organizadas, respeitadoras da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.”

Está semana 200 novos fiscais começam a trabalhar, sem contaminação, cheios de sonhos, cheios de energia e ávidos de responder a sociedade com seu trabalho. Com o exemplo recente que proporcionei com apenas 3 técnicos e 3 fiscais, mostrando que com qualidade e dedicação se supera a necessidade de quantidade, esperamos que o gestor de toda esta equipe saiba usufruir corretamente de todo este aporte e responda com dignidade aos anseios e necessidades da população de Fortaleza.

Aurélio Brito
Gestor Ambiental e Especialista em Acústica

3 comentários:

Anônimo disse...

Curioso e interessante

Anônimo disse...

So na tolerância Zero às infrações para corrigir os graves problemas de Fortaleza

kelia disse...

é muito bonito sua dedicação a este trabalho tão fantástico que voçê realiza.Continue sendo este profissional tão dedicado e apaixonado pelo o que faz. Parabéns.

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